mad men – 04×01 – public relations

“Quem é Don Draper?”

É quase uma piada que a quarta temporada de Mad Men comece assim. Estes caras estão jogando na nossa cara! Mais uma vez Matt Weiner dá um passo para trás e coloca dentro da série um elemento de metalinguagem que permite que a narrativa – e os olhares – se voltem para uma questão. Quem é Don Draper? Depois de tantos fins e recomeços que vimos no final da temporada passada e agora neste início, vemos Don às voltas mais uma vez com uma questão de identidade – e agora ele simplesmente tem o poder de ser quem ele quiser, retomar as rédeas da sua vida e se recriar novamente.

Não só pode: em certo sentido, e Don percebe isso em uma epifania depois da reunião desastrosa com os clientes que queriam BIQUINIS FAMÍLIA, ele PRECISA criar uma persona que tome a frente na SCDP, ele precisa forjar o personagem que é necessário que ele seja para que a empresa vá para frente. O que Don percebe, depois de todo o episódio com o novo repórter, é que a empresa não precisa somente que ele seja o cara que vai trazer lucros e ter ideias criativas que salvarão campanhas: precisam que ele seja a cara da companhia. “Ninguém quer que um publicitário seja enigmático”, diz um furioso Cooper a certa altura. E é com este espírito que Don, depois de passa o episódio confuso e melancólico, vai para o encontro com o jornalista do Wall Street Journal: disposto a contar um causo, a criar simpatia, a criar um personagem a partir de si mesmo.

E quase dá pena de Don nesse episódio. Depois de conquistar o que seria sua liberdade total – afetiva, saindo de um casamento falido com Betty, e também profissional, já que agora é seu próprio chefe -, Don parece não saber o que fazer consigo mesmo. Passa as noites em frente a uma TV, sozinho, recebendo os filhos de vez em quando. De seu quarto no Village sai para uma date sem muita sintonia com uma amiga de Jane e habitualmente, pelo que vemos, recebe visitas de uma prostituta. Todas as cenas da vida pessoal de Don têm algo de onírico neste primeiro episódio da temporada. Os cortes são rápidos, as cenas breves, o tempo não existe.  E quando, n’uma das cenas mais chocantes do episódio, ele pede para que a prostituta dê um tapa na sua cara, nós nos perguntamos onde isso tudo vai parar.

Na empresa, as coisas não são tão boas quanto parecem. Embora a SDCP seja una potência criativa, a julgar pelo que vemos, tem menos recursos – a ponto de precisar fingir que tem um segundo andar ou não ter uma mesa de reunião – e também está muito dependente de uma única conta (Lucky Strike). Eles precisam urgentemente arrumar negócios novos e segurar os velhos, o que é um desafio e tanto. A empresa está ali bem no limite – operando como pode com uma quantidade bem menor de pessoas do que as concorrentes e com o DINHEIRO também quase virando a esquina.

Daí porque Peter e Peggy se lançam em decisões duvidáveis, contratando gente para armar um causo ao redor de um produto de um cliente, que assim ganharia mídia gratuita. Quase que o tiro sai pela culatra, mas no final deu tudo certo. Peter mais leve, divertido, zero de tensão com Peggy por enquanto – e já tratando Roger como um igual, praticamente. Peggy também está mudada, ainda que ligeiramente. Cada temporada sempre coloca Peggy um passo adiante em maturidade e segurança. Aqui já a vemos até tendo uma brainstorm diante de Peter e de seu novo colega (que era o Jack de “Jack & Bobby”). E não é que ela toma uma decisão significativa sem consultar Don antes? E duas coisas sobre isso: primeiro, parte da bronca de Don quando foi ajudar Peggy com dinheiro para resolver a questão, parecia por ser deixado de fora por quem já foi sua pupila; e, claro, depois Peggy diz que todos estão ali para agradá-lo.

É interessante que já na premiere possamos ver Peggy e Don tendo estes momentos de honestidade um com o outro. O relacionamento dos dois é das coisas mais estimulantes de “Mad Men” e espero que continuemos vendo a ênfase nos dois.

Falsa Barbie
Muito bom também que com apenas umas duas ou três cenas e pouco tempo de January Jones a série já consiga nos explicar tão bem onde estão as coisas para a agora sra. Francis. Rapidamente casada, a vida familiar de Betty não é tão boa quanto sonhada. Além da clara – e óbvia – rejeição de Sally, ela evidentemente não é querida pela sogra, que parece enxergar que o filho casou com Betty por um impulso do qual vai se arrepender. Fora que nota de imediato a crueldade – e aqui, amigos, chegamos a um dos ápices do ESTILO BETTY DE SER MAE – da nova nora.

Henry defende a esposa, mas já parece um pouco desencantando novamente. Pelo jeito, vai ser a segunda vez que Betty vai ser uma falsa esposa perfeita para alguém. Os dois experimentam um momento de paixão quando reencenam o primeiro beijo no carro – e em partes, acredito, aquilo ali era tanto o Henry tentando se convencer de algo quanto o fato de Don ter estado ali, i.e. reativado a COMPETITIVIDADE da coisa. Don não faz questão de agradável e Betty também parece ter dificuldade em romper definitivamente com o ex, não conseguindo sair da casa – e Don meio que mata Henry naquela fala de “acredite, todo mundo acha que essa é uma situação temporária” -, mas me parece improvável uma volta entre os Draper.

No meio de tudo isso, Sally e Bobby – e já posso ver a primeira CAINDO DE CABEÇA na contracultura, saindo de casa em woodstock, quem sabe até queimando um sutiã na década de 1970… O fato de Betty ser nasty é uma realidade maior do que nunca nesta temporada – e ao contrário do que vejo alguns críticos, não sinto falta de uma ‘humanização” da Betty. Ela já teve – SEMPRE TEVE – estes porquês (criação, mãe noiada, época, valores) e se sinceramente me enoja esse pessoal que fica idolatrando e chamando de bitch (idolatrando por ser bitch), não vejo como uma necessidade que ela seja GOSTÁVEL. Só isso. E gosto do personagem, estou feliz por continuar na série.

No mais, quase nada de Joan, mas é sempre assim, não dá para jogar todo mundo na premiere. Aguardando por mais da nossa secretária favorita. O Roger tem aquelas one-lines matadoras de costume, Harry continua sendo o maior inepto do velho oeste, Pete mais jovial, como já disse, e é isso.  Ainda teve o Karl (de Lost, namorado da Alex) e a Anna Camp (Sarah, de True Blood).

Por fim, este episódio teve algo de piloto. Depois de uma temporada mais que aclamada pelos críticos e de todo o sucesso nas premiações, parece que Mad Men teve a preocupação de aproveitar este NOVO COMEÇO narrativo para facilitar as coisas para quem está chegando agora. Tem algo de piloto, sim, mas de uma maneira sutil, boa e necessária.

Autor: carol

there ain't no catcher in the rye vamo se jogar!

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