lost – 06x16x17 – the end (series finale)

Demorei um pouco, mas finalmente vou me posicionar neste cabo de guerra que o final de Lost formou entre a audiência. Nunca fui especialmente fã da série, que considero um bom entretenimento, respeito todo mundo que achou genial, embora me pareça um pouco inacreditável, e não vou ficar tentando convencer ninguém do contrário, mas minha opinião sobre esta finale, n’um resumo: preguiçosa, cafona, um pouco desonesta e nada original (como bem pontuou o Den of Geek, se voltar para Deus é a última moda no scifi, vide BSG ou Evangelion).

Adoro que neguinho quer virar isso aqui em gente que liga pros personagens vs. gente que liga para mistérios. Gente de fé vs. gente de ciência. A simples possibilidade de alguém ter achado o episódio covarde parece inacreditável. Na linha de chegada, os produtores resolveram deixar todas as revoluções de lado e jogaram pra audiência, com aquela coisa cafona que inevitavelmente tem apelo emocional para quem passou seis anos assistindo à série. Mas, como disse o devianf, esse final foi preguiçoso até para ser uma porcaria new age. Não teve nada de profundo, fanboys. Seria como se Shakeaspeare acrescentasse um epílogo mostrando o reecontro de Romeu e Julieta no céu – e da pior maneira possível, colocando tantos pingos nos is que a igreja teria símbolos de todas as religiões. Ohhh.

A falta de respostas foi o fator menos problemático desta finale, especialmente porque as respostas propostas nessa reta final foram tão ruins (ou esvaziadas, como no caso dos números, que é aquela resposta que não explica muito nada) e extremamente didáticas, como no horripilante “Across the Sea”, que eu preferia mesmo que deixassem nestes termos genéricos e fechassem a tampa da série. Como disse, as pessoas estão querendo transformar isso em uma queda de braço, querendo colocar personagens vs. mistérios, mas Lost sempre lidou bem com esta dicotomia. A série, mesmo criando mil novas perguntas e aumentando seu escopo, sempre conseguiu responder de boa os mistérios que moviam as temporadas. Quem era a francesa, o que era a escotilha, quem eram os outros, o que era a Dharma… Aí depois veio a quarta temporada, que eu adoro, mas é meio brinks. Passamos uma temporada pensando nas circunstâncias horrendas em que os Oceanic 6 tinham saído da ilha e, bem, eles só DEIXARAM A ILHA. Toda aquela coisa de “mentir para proteger” foi blábláblá, afinal.

Mas ok. Todo mundo sabia que não ia ter resposta genial e ficou claro para mim, como disse, que Damon e Carlton não saberiam responder sem um manual do lado, desde que vi os episódios de “respostas” dessa temporada. Eu não estava interessada nisso. Nego diz que quem não gostou dessa finale deve adorar a nova triologia Star Wars, que explica tudo, mas não percebem que Lost fez isso em menor escala e de maneira piorada. Tudo que descobrimos nessa temporada, pré o “The End”, foi o contrário do qualquer boa narrativa procura fazer, i.e. mostrar ao invés de explicar. E tome-lhe Michael-espírito explicando os sussurros, FLocke dizendo que era, sim, o Christian Sheppard, e por fim todas aquelas platitudes do episódio de origem do Jacob e do MIB. Juntando isso, besteiras ditas em conversas e coisas importantes aludidas de maneira genérica (a luz na caverna, a própria essência da Ilha, acho que eles pensaram que estavam criando sua própria “Força” hahaha), já sabia que esse finale dificilmente traria boas respostas e apostava somente na boa execução – que na verdade é o que vemos antes do minutos finais.

A opção por um caminho religioso é zero de problema e já estava escrita há tempos, com a transição do heroi de homem de ciência para homem de fé. Entendam. O problema não é que eu “não aprendi com Locke”, “queria tudo mastigadinho”, “não tenha entedido”, nem que Lost seja “uma série de personagens”. O problema é que mesmo descontando os furos, o que não ficou claro, as forçadas de barra, ainda assim foi um final decepcionante, cafona, proto-religioso, “preguiçoso demais até para ser new age”. A opção dos produtores de gastar toda uma temporada com este flashsideways que deu no que deu é um logro para qualquer um e só vejo que as pessoas ficaram embebidas pela emoção que obviamente sentiram.

É claro que foi emocionante – e ser piegas não é necessariamente ruim, via de regra, acabei de escrever sobre Grey’s Anatomy – mas, nesse caso, foi vazio e simplesmente DESCONECTOU o final de todo o resto. A sensação de CLOSURE é impossível com um final desses, por mais paradoxal que possa parecer (o que é mais CONCLUSIVO que o além-vida, certo?), porque esse final é qualquer final! É uma saída preguiçosa e fácil! É Rose subindo as escadas do Titanic para se encontrar com Jack, com agravante de que no filme foi só um epílogo MESMO e mais sutil, em Lost foi foi metade da temporada final e foi grosseiro. Tão grosseiro que a) mais uma vez usam A FALA, A CONVERSA, pura e simples, com o Christian Sheppard mastigando (e tem fã achando que foi complexo!) e b) os caras se encontram n’uma igreja ECUMÊNICA. Ainda lavam as mãos na saída! Dá para ser mais pingos nos is que isso? Nem com as respostas que eventualmente fossem DADAS COM UM MANUAL.

E não adianta dizer nada do flashsideway. Não importa – desde o minuto em que ele surgiu, o FS só era revelante considerando o que significava em relação à drama per si. Este final simplesmente deslocou a série. Como disse, é qualquer final. Você pode pegar este SE REENCONTRARAM depois de mortos e foram felizes para sempre e encaixar com qualquer narrativa produzida pela humanidade, virtualmente. O que é engraçado, considerando que o Damon tanto falou que cada série tem seu final próprio, ideal, ao comentar os Sopranos. Amigo, este final que vocês escolheram não tem “a cara” da sua série porque serve a QUALQUER COISA e, logo, a nenhuma especificamente.

E eu me pergunto: foi necessário? Nossos personagens, os tão falados personagens, não tinham completado seus arcos? Jack, o médico teimoso que virou um cara de fé e se sacrificou pela ilha; Kate, que vivia fugindo e finalmente chamou para si uma responsabilidade, primeiro criando Aaron e depois lutando para reuni-lo com sua mãe biológica; Sawyer, finalmente em paz e tendo vivido um relacionamento adulto; Hugo, o eterno sidekick que assumiu a liderança; Ben, se redimindo e optando pelo lado do bem – duas vezes; Sayid, também se redimindo e salvando os amigos; Jin, que mudou completamente na ilha, deixando de ser o marido cruel que era antes. Etc. Qual a necessidade de mandar essa gente para um purgatório (ou qualquer nome que lhe agrade) cenográfico? Nenhuma. Só posso crer que eles não tinham ideias melhores para queimar nesta última temporada e foram pelo embuste, mesmo, se valendo dos momentos emocionais que criariam assim.

Era realemnte importante a gente ver Jack e Juliet tendo uma filho, uma versão mais amarga e pé no chão de Locke, um Sawyer que escolheu um caminho diferente? Para mim, o flashsideway funcionou como algo de referências e piscadinhas dos produtores – veja o Sawyer como está diferente! Olha que curiosa essa versão não casada de Jin e Sun! E por aí vai. Não quero nem entrar na parte obscura da coisa – o limbo era só dos losties? Por que a Penny foi com a galera mas Nadia foi bloqueada em favor de Shannon? E a Helen, hein? Para mim a Helene era mais o amor da vida do Locke do que, sei lá, a Libby para o Hurley (pois é, ainda quiseram me vender que todos os casais da ilha eram GRANDES CASOS DE AMOR). Nem entro nesse mérito.

Mas agora, quando vejo algumas pessoas dizerem que as cinco primeiras temporadas foram fillers, eu entendo. É radical, mas faz sentido: eles afastaram tanto da série com este final que tudo que aconteceu fica parecendo fortuito e, de fato, não tem nenhuma ligação direta com como terminou. O importante foi a jornada de crescimento dos personagens – que, como eu disse, prescinde do purgatório – mas como vi um broder dizendo n’um fórum, eles tanto poderiam estar fazendo tudo que fizeram como, grosso modo, tricotando e até n’uma competição como Survivors (referência primeira da série, quando foi criada). Claro que não é a mesma coisa no duro – foram anos de entretenimento, mistérios e descobertas que, acho, não podem e não devem ser descartados, mas agora parecem meio desconectados. Desmond apertando um botão, todo mundo viajando no tempo (meu Deus, a quinta temporada), a Dharma…

Então, meus amigos, não é um mimimi “cadê os mistérios” – embora eu ache que quem reclame por isso tem sua razão, apesar de que chegar até aqui achando que a resposta viria tenha sido ingenuidade… É cinismo negar o marketing encima das “respostas” e “mistérios” e negar que este foi o diferencial de Lost. “Série de personagens” é qualquer drama (alguns bem melhores que Lost), isso não diz nada, larguem este mantra. Duas semanas atrás a ABC estava soltando uma promo com “finalmente as respostas”. É até inacreditável que tenha gente apelando para este argumento cretino. Claro que a série foi um estudo de personagens e nos aproximou muito de vários deles, mas Lost também foi uma série muito peculiar, que lidou com estes personagens de uma maneira muito específica, envolvidos em circunstâncias únicas, que incluiam ursos polares, monstro de fumaça, sussurros, viagens no tempo, gente que não envelhecia, ilha misteriosa etc.

Nenhuma resposta seria boa o bastante, mas ainda estou chocada com o “chapéu” dos produtores. Para alguns foi corajoso – eles jogaram para a audiência e ofereceram um grande escape emocional, mas para mim isso foi justamente o oposto, foi jogar no seguro. Foi primário. Eu, particularmente, já disse que achei cafona, mas nem se tivesse achado emocionante pagaria para mim o preço do engodo que foi este final.

O outro final, ignorando esta parte new age, não foi sensacional, mas foi competente, considerando a catástrofe “Across the Sea”. Não tinha outro jeito. Jack assumindo o posto de protetor da ilha e se sacrificando, a série encerrando com seu olho fechando. Apropriado, ainda que óbvio, e, sim, bonito. Too bad que tenham mencionado regras a torto e a direito e no final a gente só saiba que é preciso proteger aquela energia vital da luz da caverna ou algo ruim acontecerá. Além disso, tem aquela parte de impedir o mal de sair, mas 1) imagino que o mal era o Smokie, a Mãe nunca falou disso e 2) o mal já come no centro, né. Só posso imaginar que o Smokie, apesar de ser um pouco vítima de tudo, também, era a representação do mal absoluto.

Finalizando, como já disse, acho que a série tinha direito de fazer sua opção FILOSÓFICA entre ciência e fé, mas acho que o fez muito mal. Evangelion, para citar novamente o anime que teve um fim parecido, fez melhor – também era “de personagens” hahaha, e encarou sua escolha muito mais de frente. Fez mais sentido. . Dizem que Ashes to Ashes (não vi) fez melhor. Se você tirasse os 10 polêmicos minutos finais do episódio, eu diria que a finale tinha sido razoável. Mas, sei lá, não vou ficar aqui também tentando convencer ninguém de que esse final tá bem longe de ser o melhor final de série de todos os tempos. Que bom para quem gostou – se sentir enlevado é melhor do que se decepcionar, certo? Só não fiquem querendo diminuir quem não tá babando nessa hora e meia incerta de televisão criada pelo Lindelof e pelo Cuse.

P_S: para os que AINDA estão se matando tentando encaixar ciência onde não há, um videozinho dos produtores falando do final:
PPS: não me chamem de sem coração, mas sinceramente não tenho um “despertar” preferido neste episódio… Ficaria com Penny e Desmond no “Happily Ever After” porque tudo neles parece mais delicado. Já um top 3 piores ficaria assim: 1) Libby e Hurley se beijando na praia; 2) Kate fazendo o parto de Claire; 3) Jin e Sun rindo como idiotas depois de perceber tudo (não foi bem o despertar, que até foi bacana), mas ainda to meio puta, acho, que nenhum dos dois sequer lembrou da filha na cena do submarino. A própria filha que estavam vendo ali no exame-fake.
mais um p.s: e este início da temporada, ein? Vidas com Lennon, o japa, o templo… Faça-me o favor!

Lost
ABC
Sexta temporada
Episódios dezesseis e dezessete
Escritos por Damon Lindelof e Carlton Cuse
Dirigidos por Jack Bender

Autor: carol

there ain't no catcher in the rye vamo se jogar!

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